PAPER DE
ECONOMIA POLÍTICA
Concentração frigorífica, transmissão internacional de preços e o papel
das multinacionais brasileiras de proteína
Arion Louzada
Questão de pesquisa
Em que condições o choque de
oferta e preços da carne bovina nos Estados Unidos se transmite ao consumidor
brasileiro?
Resumo
O
encarecimento recorde da carne bovina nos Estados Unidos não é apenas um
episódio doméstico. A escassez de gado, a seca, custos elevados e a ociosidade
dos frigoríficos aumentam a demanda americana por carne importada e alteram
preços relativos no comércio mundial. Como o Brasil é grande exportador e seus
maiores grupos — JBS, Minerva e MBRF, resultante da combinação Marfrig–BRF —
operam internacionalmente, existe um canal plausível de transmissão para os
preços brasileiros. Este paper sustenta, contudo, uma versão condicional da
tese: o choque americano tende a pressionar a carne no Brasil, mas não se
reflete “necessariamente” nem de forma integral ou imediata no varejo. A
transmissão depende de acesso sanitário e tarifário, câmbio, composição dos
cortes, ciclo pecuário brasileiro, demanda de outros importadores, substituição
por frango e suínos e conduta concorrencial. A concentração pode ampliar
velocidade, coordenação logística e poder de barganha; também pode gerar
economias de escala e absorver perdas em um segmento com ganhos em outro. A
consequência distributiva é regressiva: famílias brasileiras de baixa renda
comprometem parcela maior do orçamento com alimentação e têm menos margem para
absorver alta, trocar qualidade ou preservar consumo proteico. Propõe-se um
modelo empírico para medir repasse e um conjunto de políticas de concorrência,
transparência e proteção focalizada.
Palavras-chave:
carne bovina; transmissão de preços; concentração industrial; JBS; Brasil;
Estados Unidos; inflação de alimentos.
1. Introdução: uma hipótese forte que precisa de condições

Um aparente
paradoxo distributivo. A carne bovina no varejo americano subiu 12% em
doze meses, mais de três vezes a inflação geral, mas pecuaristas,
confinadores, frigoríficos e restaurantes relatam margens comprimidas. A
explicação imediata é física: falta gado. A seca e doenças reduziram o rebanho;
os animais vivos alcançam preços recordes; e plantas dimensionadas para grande
escala diluem custos fixos por menos cabeças. Como a recomposição do
rebanho exige aproximadamente três anos, a restrição não desaparece com uma
decisão de curto prazo [1–3].
A pergunta
brasileira surge justamente porque a carne é uma mercadoria transacionável, mas
não homogênea. Uma escassez nos Estados Unidos pode elevar sua demanda por
importações, valorizar cortes exportáveis e deslocar oferta brasileira do
mercado interno. Contudo, tarifas, cotas, habilitações sanitárias, preferências
por cortes e custos logísticos criam cunhas entre mercados. Assim, a proposição
correta não é uma identidade mecânica — “o preço americano sobe, logo o
brasileiro sobe na mesma proporção” —, mas uma hipótese de repasse condicional,
assimétrico e defasado.
A
contribuição deste paper é articular quatro níveis de análise: o choque
pecuário americano; os canais de arbitragem comercial que conectam Estados
Unidos e Brasil; a estrutura industrial concentrada que determina quem tem
informação, plantas, habilitações e capital de giro para executar essa
arbitragem; e a incidência social do choque sobre consumidores desigualmente
capazes de reagir. A JBS é o caso mais abrangente, mas não está só. Minerva
ampliou ativos bovinos na América do Sul, enquanto Marfrig, controladora da
National Beef americana, incorporou a BRF e formou a MBRF, portfólio que
atravessa bovinos, aves, suínos e processados [4,16–18].
2. O diagnóstico americano: escassez, ciclo longo e
capacidade ociosa
Dados recentes do USDA. Em
1º de janeiro de 2026, os Estados Unidos tinham 86,2 milhões de bovinos e
bezerros; as vacas de corte somavam 27,6 milhões, 1% abaixo do ano anterior, e
a safra de bezerros de 2025 foi estimada em 32,9 milhões, queda de 2% [2]. O
USDA descreve o estoque de vacas de corte como o menor desde 1961 [3]. O
ciclo biológico produz rigidez. Preços altos do bezerro não geram carne
adicional no trimestre seguinte: reter novilhas primeiro reduz o abate
corrente; depois vem gestação, nascimento, recria e terminação. A oferta pode
ficar ainda mais apertada antes de se expandir. Seca e custo da alimentação
pioram essa dinâmica ao estimular descarte de matrizes e elevar o custo de
retenção. O mecanismo em escala micro: poços secos, compra de feno, caminhões e
insumos muito mais caros convertem receita nominal recorde em rentabilidade
comum.
No processamento, a mesma escassez eleva o custo do boi e reduz a
utilização das plantas. A indústria foi construída para alto throughput; quando
faltam animais, folha, manutenção e capital instalado são distribuídos por
menos carcaças. O prejuízo recente da divisão de bovinos da Tyson é compatível
com preços elevados ao consumidor. Preço alto não identifica, sozinho, a margem
de cada elo.
3. Concentração: poder de
mercado não é sinônimo de margem em todo momento
Tyson, JBS, Cargill e
National Beef respondem por cerca de 85% das compras de novilhos e novilhas nos
Estados Unidos. O USDA mostra que esse índice aumentou de 36% em 1980 para 85%
em 2012 e permaneceu em 85% no abate de 2019 [5–7]. Trata-se de concentração
elevada, relevante tanto no oligopsônio — poucos compradores de gado — quanto
no oligopólio — poucos vendedores de carne no atacado.
Ainda assim, a relação
causal exige cuidado. A revisão do USDA encontra evidência limitada de que a
concentração, isoladamente, reduza sistematicamente os preços do gado; plantas
maiores também geram economias de escala e podem reduzir custos de processamento
[5]. O poder de mercado é uma capacidade exercível, não uma garantia de lucro
trimestral. Quando o insumo escasso encarece mais rápido que a carne e a planta
fica ociosa, até uma firma dominante pode perder dinheiro. Em fases de
abundância, entretanto, poucos compradores e mercados regionais “finos” podem
reduzir alternativas do pecuarista, ampliar descontos locais ou favorecer
coordenação tácita.
Essa distinção é decisiva
para o Brasil. A concentração pode afetar o repasse por quatro vias: centraliza
informação comercial; reduz o número de decisões independentes de compra e
abate; facilita redirecionamento de volumes entre canais; e aumenta a capacidade
de sustentar estratégias regionais por meio de um balanço global. Nenhuma
dessas vias prova cartel. Elas justificam monitoramento, dados granulares e
testes empíricos de assimetria.
4. Como o choque dos EUA chega
ao Brasil
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Canal
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Mecanismo
econômico
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Condição
que limita ou amplifica
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Comércio direto
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Escassez americana eleva
importações e o valor de cortes brasileiros habilitados.
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Tarifas, cotas,
habilitações, logística e composição dos cortes.
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Arbitragem global
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Compradores disputam oferta brasileira; preços de
exportação elevam o custo de oportunidade da venda doméstica.
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China e outros destinos podem dominar a formação
do preço marginal.
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Câmbio
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Dólar valorizado aumenta a receita em reais da
exportação e o preço necessário para reter produto no Brasil.
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Apreciação do real ou hedge reduz o impulso.
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Portfólio empresarial
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Grupos multinacionais realocam produção, mix,
estoques e capital entre regiões e proteínas.
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Capacidade física não é fungível
instantaneamente; regras sanitárias segmentam plantas.
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Substituição
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Carne bovina cara nos EUA favorece
frango/importados; no Brasil, bovina cara desloca consumo para frango e
suíno.
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Renda, hábitos e preços de milho e soja
determinam elasticidades.
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Expectativas
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Atacado e varejo antecipam menor disponibilidade
futura e renegociam contratos.
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Concorrência varejista e estoques podem atrasar o
repasse.
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Quadro 1 — Canais de transmissão entre
os mercados. Elaboração própria.
O canal mais direto é a
exportação. Quando o preço líquido americano — preço no destino menos frete,
tarifa, seguro e custos de conformidade — supera a alternativa doméstica,
frigoríficos habilitados exportam mais. A oferta interna não precisa cair em tonelagem
absoluta para o preço subir: basta que a demanda externa eleve o valor marginal
de determinados cortes. A Conab já observou, no contexto brasileiro de 2025,
que o aumento das exportações contribuiu para reduzir a oferta doméstica [8].
O segundo canal é indireto
e possivelmente maior. Mesmo que os Estados Unidos não sejam o principal
comprador do Brasil, a compra americana disputa produto e libera ou captura
oferta que iria a terceiros. O mercado relevante é uma rede multilateral. Um choque
nos EUA pode elevar referências globais, mudar descontos por qualidade e
induzir China, México ou outros importadores a ajustar suas compras. Por isso,
medir apenas o fluxo bilateral subestima o vínculo.
O terceiro canal é cambial.
A decisão do frigorífico compara receitas em reais. Uma alta em dólar pode não
chegar ao Brasil se o real se apreciar na mesma proporção; inversamente, dólar
forte amplifica a export parity. O quarto canal é interproteínas: a teoria de
demanda mostra limites ao repasse quando consumidores migram para frango, suíno
ou cortes mais baratos. Essa substituição disciplina margens, mas transfere
pressão para outros mercados de proteína e ração.
5. Os gigantes brasileiros como
rede global de arbitragem
A JBS não é apenas uma
exportadora brasileira nem apenas uma processadora americana. Seu relatório
anual apresenta sete segmentos, entre eles Brasil, Seara, Beef North America,
Pork USA, Pilgrim’s Pride e Austrália; a companhia informa 33 instalações de processamento
de bovinos no Brasil [4,9]. Essa arquitetura fornece informação operacional
sobre preços do gado, margens, demanda varejista, mix de cortes e capacidade em
diferentes mercados.
A MBRF oferece uma segunda
ponte, com desenho diferente. Antes da incorporação da BRF, a Marfrig já
controlava a National Beef, quarta maior processadora bovina dos Estados
Unidos, com cerca de 14% da capacidade de abate americana informada em março de
2025. O grupo obtinha aproximadamente 48% da receita na América do Norte, 12%
na América do Sul e 39% na BRF, alcançando clientes em cerca de cem países
[16]. Em setembro de 2025, o Cade aprovou sem restrições a incorporação
integral da BRF pela Marfrig [17]. O resultado combina bovinos e hambúrgueres
nos EUA com aves, suínos, marcas e distribuição global — capacidade relevante
para substituir proteínas, administrar mix e reagir a margens divergentes.
A Minerva representa um
terceiro vetor, mais especializado em bovinos e arbitragem sul-americana. A
compra de ativos de abate e desossa da Marfrig no Brasil, Argentina e Chile foi
aprovada pelo Cade com restrições em 2024; o Uruguai, por sua vez, bloqueou
parte da transação em sua jurisdição [16,18]. O episódio é instrutivo: a
consolidação não ocorre em vazio regulatório e pode ter efeitos distintos por
bacia pecuária. Ao ampliar plantas, habilitações e origens, a Minerva aumenta
sua capacidade de atender janelas de demanda externa e escolher onde comprar
gado.
Essas empresas funcionam,
em graus diferentes, como sensores, executores e amortecedores. Capturam sinais
globais antes de agentes puramente domésticos; possuem trading, logística,
relacionamento com importadores e capital de giro; e compensam perdas de uma
geografia ou proteína com ganhos em outra. A estrutura pode reduzir custos e
estabilizar abastecimento, mas também concentra a decisão marginal de exportar,
abater, fechar escala e formar mix em poucas administrações. O foco analítico
correto, portanto, é o oligopólio transnacional brasileiro — com estratégias
heterogêneas — e não uma narrativa monocausal sobre a JBS.
Integração societária não
significa que carne possa ser deslocada instantaneamente de qualquer planta
brasileira para qualquer supermercado americano. Cada instalação depende de
habilitação; cortes têm especificações; contratos, tarifas e prazos importam.
Tampouco o interesse consolidado desses grupos coincide automaticamente com
elevar preços no Brasil. A hipótese testável é mais modesta: presença
multinacional e multiproteína reduz fricções e defasagens da arbitragem e pode
alterar a velocidade e a incidência do repasse.
No Brasil, a trajetória de
aquisições da JBS já motivou remédios e monitoramento do Cade. Em 2015, o órgão
examinou 13 atos de concentração e exigiu comunicação de novas operações; em
JBS–Rodopa, impôs manutenção de plantas, alienação de marca e limites confidenciais
a novas aquisições em determinados estados. Em análise posterior, a
Superintendência apontou risco de elevada concentração no abate regional e no
atacado de carne desossada [10–12]. Essas decisões não demonstram abuso
presente, mas documentam por que o mercado deve ser observado em geografia
fina: o pecuarista vende gado em raio limitado, enquanto a carne viaja nacional
e internacionalmente.
6. O consumidor brasileiro:
vulnerabilidade e incidência regressiva
No Brasil, o mesmo aumento
nominal tem efeitos muito diferentes conforme a renda. Famílias pobres destinam
maior fração de seus recursos à alimentação, dispõem de pouca poupança e
enfrentam limites para substituir carne bovina sem perda de variedade, qualidade
ou densidade nutricional. A resposta observável não é apenas pagar mais: é
comprar menos, migrar para cortes mais gordurosos ou processados, reduzir
frequência, substituir por ovos e frango, ou cortar outras despesas essenciais.
O preço de varejo, portanto, mede apenas parte do custo social.
A PNAD Contínua registrou
melhora em 2024, mas ainda havia 18,9 milhões de domicílios — 24,2% do total —
em algum grau de insegurança alimentar. As taxas eram 16,4% em insegurança
leve, 4,5% moderada e 3,2% grave [19,20]. A categoria leve já inclui preocupação
com acesso futuro e comprometimento da qualidade da alimentação; a moderada
envolve restrição quantitativa entre adultos; a grave pode alcançar crianças e
fome [20]. Um choque de proteína encontra, assim, uma base social que já opera
próxima do limite.
A condição de economia
emergente importa por três razões. Primeiro, renda mediana menor torna a
demanda mais sensível e o bem-estar mais vulnerável. Segundo, câmbio mais
volátil amplia a transmissão de preços em dólar para reais. Terceiro, redes de
proteção e crédito ao consumo têm cobertura e custo heterogêneos. O mecanismo é
regressivo mesmo quando o IPCA agregado parece moderado: famílias de alta renda
podem trocar cortes, restaurantes ou marcas; famílias pobres ajustam quantidade
e qualidade. Além disso, quando a bovina encarece, a migração para frango,
suíno e ovos pode elevar esses preços, espalhando o choque pela cesta.
A análise distributiva deve
acompanhar quatro resultados: preço por corte; quantidade adquirida; qualidade
nutricional; e proporção do orçamento comprometida. Também deve separar regiões
e grupos raciais, domicílios chefiados por mulheres e presença de crianças,
dimensões nas quais a insegurança alimentar não se distribui uniformemente. O
consumidor vulnerável não é um agente residual ao final da cadeia: é o critério
pelo qual eficiência exportadora e política concorrencial devem ser avaliadas.
7. Por que “necessariamente” é
excessivo
Há pelo menos seis
situações em que a alta americana pode não chegar, ou chegar pouco, ao
consumidor brasileiro. (i) barreiras tarifárias ou sanitárias podem bloquear o
comércio; (ii) expansão do abate no ciclo brasileiro pode compensar a demanda
externa; (iii) apreciação cambial pode neutralizar o preço internacional; (iv)
exportações podem concentrar-se em cortes pouco disputados pelo varejo
brasileiro; (v) competição e contratos no varejo podem comprimir margens; e
(vi) demanda doméstica fraca pode impedir repasse e provocar substituição.
A experiência tarifária de
2025 ilustra a não linearidade. Relatório do USDA sobre o Brasil registrou que
uma tarifa adicional americana afetou carregamentos e levou à interrupção de
produção destinada aos Estados Unidos, mostrando que política comercial pode
romper temporariamente o canal mesmo quando a escassez americana persiste [13].
Por outro lado, decisões posteriores de redução tarifária reabrem a passagem. O
resultado é um repasse com mudanças de regime, não uma elasticidade constante.
Também é incorreto inferir
que toda alta ao consumidor se converte em renda do frigorífico. A pergunta
distributiva deve decompor preço do boi, rendimento de carcaça, custos, mix de
cortes, frete, atacado, varejo e tributos. Concentração importa, mas sua
manifestação pode ocorrer no preço pago ao produtor, na velocidade do ajuste,
no spread atacadista ou na disponibilidade regional — e não necessariamente em
todos ao mesmo tempo.
8. Estratégia empírica para
testar a tese
Um teste convincente deve
usar dados mensais ou semanais e separar choques. A variável dependente seria o
preço real de cortes bovinos no atacado e no IPCA brasileiro. As explicativas
incluiriam preços americanos de gado e carne, preço de exportação do Brasil por
destino e corte, câmbio, tarifa/cota, volumes exportados, abate e estoque de
bovinos no Brasil, milho, soja, frete e preços de frango e suíno. Indicadores
de seca e rebanho americano serviriam como instrumentos ou choques
narrativos. Um modelo de correção de erros
permitiria estimar cointegração de longo prazo e defasagens de curto
prazo.
Regressões
locais em torno de choques de rebanho, seca e tarifa mediriam respostas
dinâmicas. Para concorrência, o ideal é painel por estado e planta, cruzando
preços do boi, raio de compra, capacidade ativa, fechamentos e participação dos
frigoríficos. Interações entre choque externo e concentração local testariam se
o repasse é mais rápido ou assimétrico onde há menos compradores.
Quatro hipóteses devem ser
pré-registradas: H1, choques positivos de preço/importação nos EUA elevam
preços de exportação brasileiros; H2, estes elevam o atacado e, com defasagem,
o varejo no Brasil; H3, o efeito é maior quando o real está depreciado, a capacidade
brasileira está apertada e a concentração regional é elevada; H4, a perda de
bem-estar é proporcionalmente maior nas faixas de baixa renda e aparece também
em redução de quantidade e substituição por proteínas. A hipótese nula
relevante não é efeito zero em todo horizonte, mas ausência de repasse após
controlar o ciclo pecuário e a demanda global.
9. Implicações de política
pública e concorrencial
A resposta adequada não é
impedir exportações: isso reduziria previsibilidade, investimento e renda no
campo, além de poder gerar retaliação. O foco deve ser tornar a transmissão
observável e contestável. Dados semanais sobre preços do boi por microrregião,
capacidade ativa e ociosa, escalas de abate, spreads de cortes e destino das
vendas permitiriam distinguir escassez de conduta anticompetitiva.
O Cade deveria manter
análise geográfica do oligopsônio, pois participação nacional oculta mercados
locais de compra. Fusões, arrendamentos, paralisações coordenadas e aquisições
de plantas inativas merecem exame conjunto. Remédios devem preservar capacidade
rival efetivamente operante, não apenas ativos formais. Ao mesmo tempo,
políticas de inspeção e crédito podem reduzir barreiras para frigoríficos
médios, cooperativas e plantas regionais, desde que não comprometam segurança
sanitária.
Para inflação e segurança
alimentar, monitoramento do Banco Central, Conab e IBGE deve integrar paridade
de exportação, câmbio e ciclo de matrizes. Medidas sociais focalizadas —
reforço temporário de renda, alimentação escolar, restaurantes populares e compras
públicas com desenho anticíclico — são preferíveis a tabelamento generalizado.
Benefícios podem ser acionados por gatilhos transparentes de inflação de
alimentos e insegurança, evitando subsídio permanente aos elos de maior poder
de mercado. Diversificação de proteínas, redução de perdas e concorrência
varejista aumentam resiliência. Em comércio exterior, estabilidade de regras
sanitárias e tarifárias reduz saltos abruptos que favorecem apenas agentes
capazes de absorver incerteza.
10. Conclusão
O que ocorre no mercado
americano de carne bovina é relevante para o consumidor brasileiro porque os
dois mercados compartilham uma fronteira econômica: comércio, preços
internacionais, câmbio e empresas transnacionais. A escassez de gado nos
Estados Unidos aumenta a procura por oferta alternativa e eleva o custo de
oportunidade da carne brasileira. A longa duração do ciclo bovino torna o
impulso persistente. A palavra “necessariamente”,
porém, deve ser substituída por “tende a, sob condições identificáveis”. O
repasse pode ser parcial, defasado, assimétrico ou interrompido. Concentração
não cria o choque de oferta, nem garante lucro ao processador quando o boi está
escasso; ela altera a forma de transmissão, o poder de barganha e a capacidade
de arbitragem. JBS, MBRF e Minerva conectam, por arquiteturas diferentes,
origens, mercados e proteínas; sua atuação deve ser analisada com dados de
plantas, mercados regionais e margens, não por imputação.
Para o consumidor
brasileiro vulnerável, a distinção entre repasse integral e parcial não elimina
o risco. Mesmo altas menores podem produzir grande perda de bem-estar quando
alimentação já ocupa parcela elevada do orçamento e quase um quarto dos domicílios
vive algum grau de insegurança alimentar. A avaliação de política deve observar
não só o IPCA, mas também quantidade, qualidade e substituição do
consumo. A conclusão substantiva é dupla.
Para consumidores, a alta americana constitui risco altista real para a carne
no Brasil.
Para
política pública, o problema não se resolve isolando o país, mas aumentando
contestabilidade, transparência e capacidade de diagnóstico. O teste decisivo é
empírico: medir quando o choque externo atravessa a fronteira, por qual canal,
em quanto tempo e quem absorve ou retém cada parcela do ajuste.
Referências
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nos EUA?”. BBC News, 5 ago. 2026.
[2] USDA/NASS. United States cattle inventory down slightly. 30 jan.
2026. https://www.nass.usda.gov/Newsroom/2026/01-30-2026.php
[3] USDA/ERS. Livestock, Dairy, and Poultry Outlook: February 2026.
https://www.ers.usda.gov/media/20857/ldp-m-380.pdf
[4] JBS N.V. Annual Report on Form 20-F, exercício de 2025. SEC, 2026.
https://www.sec.gov/Archives/edgar/data/1791942/000121390026034213/ea0282342-20f_jbsnv.htm
[5] USDA/ERS. Concentration in U.S. Meatpacking Industry and How It
Affects Competition and Cattle Prices. 25 jan. 2024.
https://www.ers.usda.gov/amber-waves/2024/january/concentration-in-u-s-meatpacking-industry-and-how-it-affects-competition-and-cattle-prices
[6] MACDONALD, J. M. Concentration and Competition in U.S. Agribusiness.
USDA/ERS, EIB-256, 2023.
https://ers.usda.gov/sites/default/files/_laserfiche/publications/106795/EIB-256.pdf
[7] USDA/ERS. Buyer concentration grows in U.S. cattle markets. 24 mar.
2016. https://www.ers.usda.gov/data-products/charts-of-note/78841
[8] CONAB. AgroConab Mensal: maio de 2025.
https://www.gov.br/conab/pt-br/atuacao/informacoes-agropecuarias/analises-do-mercado-agropecuario-e-extrativista/analises-de-mercado/analise-mensal/agroconab/agroconab-mensal-2025/agroconab-maio2025.pdf
[9] JBS S.A. Annual Report on Form 20-F, exercício de 2024. SEC, 2025.
https://www.sec.gov/Archives/edgar/data/1450123/000101376225002376/ea0234555-20f_jbssa.htm
[10] CADE. JBS terá de informar compras de frigoríficos ao Cade pelos
próximos 30 meses.
https://www.gov.br/cade/pt-br/assuntos/noticias/jbs-tera-de-informar-compras-de-frigorificos-ao-cade-pelos-proximos-30-meses
[11] CADE. Cade aplica restrições à operação entre JBS e Rodopa.
https://www.gov.br/cade/pt-br/assuntos/noticias/cade-aplica-restricoes-a-operacao-entre-jbs-e-rodopa
[12] CADE. Superintendência-Geral conclui parecer sobre operação entre
JBJ Agro e Mataboi. 7 jun. 2017.
https://www.gov.br/cade/pt-br/assuntos/noticias/superintendencia-geral-conclui-parecer-sobre-operacao-entre-jbj-agro-e-mataboi
[13] USDA/FAS. Livestock and Products Annual: Brazil. Report
BR2025-0024, 9 set. 2025.
https://apps.fas.usda.gov/newgainapi/api/Report/DownloadReportByFileNamefileName=Livestock+and+Products+Annual_Brasilia_Brazil_BR2025-0024
[14] IBGE. IPCA — Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo.
Resultados de junho de 2026.
https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/precos-e-custos/9256-indice-nacional-de-precos-ao-consumidor-amplo.html
[15] MARANHÃO, R. L. A.; VIEIRA FILHO, J. E. R. A dinâmica do
crescimento das exportações do agronegócio brasileiro. Ipea.
https://repositorio.ipea.gov.br/bitstreams/47b5dd7b-8e4e-40e1-b037-6f64620e2e6d/download
[16] MARFRIG GLOBAL FOODS S.A. Informações operacionais do 1º trimestre
de 2025, incluindo National Beef e BRF. SEC, 2025.
https://www.sec.gov/Archives/edgar/data/1122491/000121390025045566/ea024266202ex99-3_brf.htm
[17] CADE. Tribunal aprova incorporação da BRF pela Marfrig. 5 set.
2025.
https://www.gov.br/cade/pt-br/assuntos/noticias/tribunal-do-cade-aprova-incorporacao-da-brf-pela-marfrig
[18] CADE. Aquisição, pela Minerva, de ativos da Marfrig aprovada com
restrições. 25 set. 2024.
https://www.gov.br/cade/pt-br/assuntos/noticias/cade-aprova-com-restricoes-aquisicao-pela-minerva-de-ativos-da-marfrig
[19] IBGE. Mais de dois milhões de lares saem da insegurança alimentar
em 2024. 10 out. 2025.
https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/44728-mais-de-dois-milhoes-de-lares-saem-da-inseguranca-alimentar-em-2024
[20] IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua:
Segurança Alimentar 2024.
https://biblioteca.ibge.gov.br/index.php/biblioteca-catalogo?id=2102212&view=detalhes
Nota metodológica:
informações da BBC tratadas como fonte jornalística; dados quantitativos adicionais conferidos nas fontes
oficiais listadas. Revisão matemática com recurso de IA.